Thursday, August 31, 2023

31 de agosto

 


Vivo a era da escassez. Pouco entusiasmo, poucas coisas boas a acontecer, pouca sorte naquilo que procuro, pouca vida a fervilhar dentro de mim.

Navego à vista, com uma eterna (?) perseverança de que haverá o dia em que tudo sinta de forma diferente. Anseio que me regresse a gargalhada plena,

as asas de borboleta na barriga, e o deitar na almofada, à noite, com aquela sensação de que, afinal, vale a pena e quero continuar para ver o que aí vem.
As palavras, essas, sobram-me na cabeça e acobardam-se nos dedos quando após não sei quantas tentativas de as parir acabo por desistir e passar mais outro
dia, meio perdida, e outra noite a contar todas as horas, sem este que sempre foi o meu divã de psiquiatra.


Há alturas assim, em que por mais que se plante, nada floresce. É ir regando, dizem.

Saturday, November 12, 2022

12 de novembro

 


O cursor a piscar num ecrã branco, minutos a fio, provou-me que escrever parecia agora um lugar estranho.

Em desespero por algum conforto, depois de tudo tentar, e [em] tudo falhar, insisti. Parte de mim ainda hoje não sabe como se encontram respostas por entre letras, tantas vezes escritas de parto difícil. Só que...eu preciso disto. E preciso de alguém que me salve. De mim própria. 

[...]

Fecho os olhos. É ele que[m] me vem à cabeça. Sempre. Dia ou noite. Às 3 da tarde num escritório caótico, às 3 da manhã numa cama onde alguém, que não eu, dorme em paz.

Eu acho que se pensar bem nunca tive paz. Talvez, simplesmente, não saiba viver com ela, talvez me entedie, ou talvez eu viva a arranjar desculpas e pretextos para manter acesa uma guerra cá dentro.

Por estes dias, é ele a minha guerra. [Ainda] não a entendo. E também não o entendo a ele. Entristece-me pensar que nunca o poderei fazer, porque o tempo é o errado. O da vida. Na minha cabeça e no meu corpo seria o certo. Disse acima que fechava os olhos e ele estava aqui, mas menti. No momento em que escrevo estas letras ele está nelas, em cada hesitação antes de carregar na próxima tecla, na sofreguidão com que preciso que as palavras me saiam e construam frases, na ânsia que tenho de olhar para ele. De procurar o olhar dele. De encontrar a forma como olha para mim, com a toda a vaidade que isso me traga por breves instantes.

 [...]

O toque áspero da barba contra as pontas dos meus dedos lembra-me que ele é real. Inusitada a atenção que [ele] me despertou, talvez numa outra vida, dentro desta que vivo, não me provocasse nada.

O momento corresponde, porque posso deslizar-lhe a minha mão pelo rosto, sem que me pergunte nada. Acho que quer entender-me, embora não consiga. Por ora, aquele encontro basta-me. Sabê-lo contra a minha pele, sentir o seu cheiro e a forma como olha para mim como se me visse o fundo.

Tu és o meu rasgo de loucura. A nota que quebra a monótona melodia que [me] toca por estes dias.

Não preciso que digas o que quer que seja. Basta que me olhes assim. Basta que me deixes ver-me através dos teus olhos. Talvez eu me [re]encontre.